domingo, janeiro 29, 2006

Do rosa para o branco

O dia começou diferente, minha mãe não veio me acordar aos gritos, minha irmã menor não me acordou derrubando alguma boneca no chão, ou me chamando para experimentar o seu chá, feito na “cozinha da Eliana”, minha cama estava diferente e branca, não fui pra escola também, não cheguei atrasada, aquele cara da banca de jornal que sempre me olha estranho, não me olhou também, meu quarto está todo branco, era rosa, papel de parede rosa, tudo rosa, desde que me recordo, sempre foi assim, nunca gostei de rosa, estranho, não sei se o motivo foi de eu ter crescido nessa “rosidade” toda, eu gostava de rock, não andava de preto, só uso umas correntes na minha calça, acho bem legal, eu tinha problemas também, bom, mas agora estão todos resolvidos, (droga odeio que entrem no meu quarto sem minha permissão), não sou de fazer amizade fácil, sou muito tímida, tem gente que acha que sou metida por causa desse meu jeito, eu passava horas pensando na vida, tentando entender o porque de eu estar aqui nesse mundo, acho que eu gostaria de ter nascido homem, por que? Bom, meninos ficam na rua até tarde jogando bola, não que eu goste de futebol, eu gosto só de copa do mundo, não tem aquelas trocas completas de jogadores, pelo menos de alguns que jogaram na copa anterior eu lembro do nome, isso se não for nome que termina com “inho”, ou com “son”, que tem aos montes e me confunde, e nomes compostos, como, Fernando Carlos, Luiz Antônio, Augusto baiano, sempre acabo colocando jogador em outra cidade, não tenho o que fazer além de estudar, porém os meninos jogam jogos eletrônicos, assistem desenhos japoneses de luta, ou vêem indecências na Internet, humm, essas coisas não me interessam, nem sei o que fazer, além de ouvir músicas o dia todo, tv? É, se eu travar uma luta entre o canal de desenho contra o que eu quero assistir, ou novela contra o que quero assistir, enfim, se ao menos eu gostasse de ler, mas não, odeio ler! odeio fazer serviço doméstico, odeio o maldito curso de inglês que me obrigam a fazer, por que meninas ganham maturidade mais cedo? Para que serve essa maturidade com 13 anos de idade, larguei as bonecas, não tem nada pra fazer, preferia estar com elas ainda, não posso namorar, sou muito nova pra isso, também está ta na hora de eu começar a aprender certas coisas porque já estou “grandinha”, não da pra entender, (por que continuam entrando no meu quarto) minha mãe está triste, não há nada que eu faça para ela, ela não muda, meu pai não vem mais pedir para eu abaixar o som do rádio, bom, nem tenho mais rádio, eu queria descobrir se aquele garoto da outra sala gosta de mim, não tive coragem de perguntar, bom a gente sempre deixa as coisas pra depois mesmo, também não pedi desculpas pelo vaso importado, de sei lá onde, que eu quebrei até hoje, acho que não vão ligar pra isso, não fiz nada de errado, não fiz escolhas erradas, também, não deu tempo, estranho... não sinto meu corpo, não consigo me mover mais, você já deve ter percebido, só eu que não, alias, percebi, mas não quis acreditar, eu estou morta. Aqui deixo o mundo, tudo o que deixei para depois, levo comigo para sempre.

2 comentários:

Anônimo disse...

Meu amigo, texto muito bem feito!
Eu gostei porque foi uma surpresa o final, nas ultimas linhas ja dei uma disconfiada e parece q eu acertei ^^
Na minha opinião eu intendi que seria bom fazer o que você pode fazer agora... pq pode acontecer o inesperado depois..
Abraço

Anônimo disse...

Nossa, muito da hora, adorei!!!